Eu, Lis Fonseca
“Quero dizer que as pessoas normais padecem ou desfrutam a realidade, mas não podem fazer nada com ela, enquanto o escritor pode, sim, porque sua profissão consiste em dotar a realidade de sentido, mesmo que esse sentido seja ilusório; ou seja, ele pode dotá-la de beleza, e essa beleza ou esse sentido são seu escudo. Por isso eu digo que o escritor é um maluco que tem a obrigação ou o duvidoso privilégio de ver a realidade, e por isso, quando um escritor para de escrever, acaba se matando, porque não conseguiu se livrar do vício de ver a realidade, mas já não tem aquele escudo para se proteger dela.”
A velocidade da luz - Javier Cercas
Escrever é ato por si, independe de público ou publicação. Como não se definir por algo que é oxigênio todos os dias? Sou escritora. Me sinto corajosa e ousada por dizer algo assim.
“A bicicleta azul”, de Régine Deforges, o primeiro livro não infantil que li aos 8 anos. É o primeiro volume de uma trilogia cuja história aborda em plano maior a 2ª Guerra Mundial pela perspectiva francesa. Na época eu não entendia tudo o que lia; o que entendia era maravilhoso para mim, embora quisesse que as personagens tivessem feito diferente. Mas estava lá, tinta no papel, nada mudaria. Comecei a escrever como todo mundo começa: encantada pelo poder de criar. Demorei para mostrar às pessoas o que eu escrevia. Tive a sorte de encontrar pelo caminho algumas pessoas que me trouxeram essa vontade nova de compartilhar.
Por razão da vida adulta, parei de escrever. Me formei em Publicidade e Propaganda na Universidade de São Paulo (USP). Tive também sorte, mas competência, de ser contratada por uma agência onde o ex-dono, meu padrinho padrinho profissional, me ensinou grande parte do que eu precisava para ter sucesso na área. Fui feliz.
Então o incômodo, a angústia. Negligenciava algo que voltava aos meus pensamentos todos os dias. Eu estava sobrevivendo.
Chegou às minhas mãos “A velocidade da luz” de Javier Cercas. Você sabe exatamente qual a sensação de, por acaso, ser escolhida por um livro no exato momento em que precisa dele.
Entendi: voltar a escrever para viver.
A literatura sempre fez parte da minha vida, sempre fará. Descobri, enfim, que, além de leitora, sou instrumento e agente.
O que as pessoas dizem sobre o que escrevo:
“O especial de conhecer tão bem a autora é que, eu li esta história, quase toda ela, com a voz da Lise na minha cabeça. Essa voz, por mim TÃO conhecida, me contou a história de Ana Flávia.
Uma coisa que me chamou a atenção é a sagacidade da mente da Ana Flávia criança, foram meus capítulos favoritos. A Lise conseguiu escrever de uma forma infantil sem parecer forçado e pude sentir a evolução dessa mente durante o tempo e durante a escrita.
Outro ponto que pra mim, como mãe, é digno de nota (e de muito sofrimento), são as mãe deste livro. Uma que tem o seu direito de maternidade arrancado por quem ela deveria poder confiar, outra que tem uma filha imposta e que devido a sociedade patriarcal na qual vive acaba transferindo sua frustração e sua decepção na pessoa errada, acabando por se transformar muitas vezes em vilã. E por último, a mãe que não pode ser mãe por muito tempo, que não pôde amar a própria filha por mais que poucos anos, tempo insuficiente para ser lembrada pela pessoa que mais precisava ser amada."
Aline Gonçalves, leitora beta
"Em tantos anos fazendo o trabalho de leitura crítica, conto nos dedos de uma mão quantos textos apresentam tanta qualidade literária.
Ana Flávia é uma personagem especial, com quem é impossível não criar empatia. A história da mulher que, desde criança bem pequena, enfrenta tantas dificuldades e ausências, mas, ao mesmo tempo, encontra em algumas pessoas carinho, amor e companheirismo. É interessante a abordagem do processo de dissolução da personagem, que se sente desaparecer, na medida em que vai deixando pelo caminho seus sonhos e esperanças. Essa é uma das melhores descrições da depressão que eu já vi. A sensação física de que estamos deixando de existir, na medida em que vamos nos sentindo desnudar, como uma cebola, que vai soltando casca por casca.
Em relação ao aspecto formal do texto, "O pedaço que fica" se vale de um léxico simples e enxuto, que confere fluência à leitura; os diálogos são bem construídos e soam de maneira absolutamente natural, pois a linguagem é bastante coloquial e há a "representação fonética" das palavras, assim como seriam pronunciadas em uma conversa. Isso é raro, especialmente em autores novos. Mais especial mesmo é a quantidades de imagens criativas e extremamente expressivas que há no texto. Não há clichês, não há lugares-comuns. O que existe é uma sofisticação absurda que mostra que a autora é uma leitora "treinada", ou seja, acostumada a ler textos de alta qualidade literária."
Lúcia Facco, leitora crítica
